top of page
Buscar

Burnout: uma visão psicológica do esgotamento no trabalho

  • Foto do escritor: Anna Beatriz Barbosa Dorado
    Anna Beatriz Barbosa Dorado
  • 18 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

O termo burnout tornou-se amplamente utilizado nos últimos anos para descrever estados de exaustão física, emocional e mental relacionados ao trabalho. Embora popularizado pela mídia e pelo discurso corporativo, o burnout é um fenômeno complexo, que exige uma compreensão psicológica cuidadosa, evitando reduções simplistas ou diagnósticos apressados.

Na clínica psicológica, o burnout aparece frequentemente associado a sofrimento significativo, queda de desempenho, distanciamento afetivo e sensação de perda de sentido. Este artigo apresenta uma leitura integrativa do burnout, baseada em referências consolidadas da psicologia clínica — especialmente da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), dos modelos de regulação emocional, das abordagens transdiagnósticas e das práticas baseadas em mindfulness.


O que é burnout?


O burnout é geralmente compreendido como um estado de esgotamento resultante da exposição prolongada a estressores ocupacionais crônicos. A definição clássica descreve três dimensões principais:


  • Exaustão emocional: sensação de não ter mais recursos internos para lidar com as demandas.

  • Despersonalização ou distanciamento: atitude cínica ou emocionalmente distante em relação ao trabalho e às pessoas.

  • Redução da realização pessoal: sentimento de ineficácia, incompetência ou fracasso.


Do ponto de vista nosológico, o burnout não é classificado como transtorno mental no DSM-5-TR, aparecendo como uma condição associada a fatores psicossociais e ocupacionais. Isso não diminui sua relevância clínica, mas indica que ele deve ser compreendido como um processo e não apenas como um rótulo diagnóstico.


Burnout e psicopatologia: o que ele não é


Um ponto central na prática clínica é diferenciar burnout de outros quadros com os quais ele frequentemente se confunde:

  • Transtornos depressivos

  • Transtornos de ansiedade

  • Transtorno de ajustamento


Embora compartilhe sintomas com essas condições, como fadiga, desesperança, irritabilidade e dificuldades cognitivas, o burnout possui uma relação direta com o contexto de trabalho, sendo geralmente aliviado (ao menos parcialmente) quando há afastamento do ambiente estressor.

Autores da psicopatologia clínica ressaltam que o burnout pode funcionar como fator precipitante ou mantenedor de quadros psiquiátricos, mas não deve ser automaticamente equiparado a eles.


A perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)


Na TCC contemporânea, o burnout é compreendido a partir da interação entre:


  • Demandas ambientais elevadas

  • Padrões cognitivos rígidos

  • Estratégias emocionais e comportamentais disfuncionais


Crenças centrais e regras de vida


Pacientes em burnout frequentemente apresentam crenças como:


  • “Meu valor depende do meu desempenho”

  • “Eu não posso falhar”

  • “Descansar é sinal de fraqueza”


Essas crenças geram regras internas inflexíveis (“tenho que dar conta de tudo”, “não posso decepcionar”) que mantêm ciclos de sobrecarga e autocobrança.


Pensamentos automáticos e esgotamento


Em situações de alta demanda, surgem pensamentos automáticos recorrentes, como:

  • “Nunca é suficiente”

  • “Se eu parar, tudo desmorona”

  • “Não posso errar agora”


Esses pensamentos intensificam ansiedade, tensão fisiológica e comportamento de hiperengajamento, contribuindo para o esgotamento progressivo.


Burnout como falha de regulação emocional


Modelos contemporâneos enfatizam o burnout como resultado de estratégias disfuncionais de regulação emocional ao longo do tempo.


Entre os padrões mais comuns estão:

  • Supressão emocional crônica

  • Invalidação das próprias necessidades

  • Evitação de sinais de cansaço

  • Uso excessivo de controle cognitivo


Segundo autores da TCC focada em emoção, quando emoções como medo, frustração e tristeza são sistematicamente ignoradas ou reprimidas, o custo psicológico se acumula, levando a colapsos emocionais e somáticos.


A contribuição dos modelos transdiagnósticos


O Protocolo Unificado para o Tratamento Transdiagnóstico dos Transtornos Emocionais oferece uma leitura particularmente útil do burnout.


Nessa perspectiva, o burnout pode ser visto como:

  • Um padrão de evitação experiencial (evitar sentir limites, vulnerabilidade, frustração)

  • Uma relação rígida com emoções consideradas “inaceitáveis”

  • Um estilo comportamental dominado por desempenho e controle


Essa leitura permite trabalhar o burnout sem a necessidade de enquadrá-lo em categorias diagnósticas fechadas, focando nos processos psicológicos subjacentes.


Mindfulness, piloto automático e esgotamento


Abordagens baseadas em mindfulness descrevem o burnout como um estado de funcionamento em piloto automático prolongado.


Nesse estado, o indivíduo:

  • Opera constantemente no modo de fazer

  • Perde contato com sinais corporais de cansaço

  • Responde às demandas de forma reativa

  • Tem pouco acesso a experiências de descanso genuíno


Programas baseados em atenção plena mostram que o cultivo de consciência momento a momento ajuda a interromper ciclos automáticos de sobrecarga, favorecendo escolhas mais reguladas e alinhadas às necessidades reais.


Sintomas mais comuns do burnout


Os sinais de burnout podem se manifestar em diferentes níveis:


Emocionais

  • Irritabilidade

  • Apatia

  • Sensação de vazio

  • Culpa ao descansar


Cognitivos

  • Dificuldade de concentração

  • Pensamento dicotômico

  • Autocrítica excessiva

  • Sensação de ineficácia


Físicos

  • Fadiga persistente

  • Distúrbios do sono

  • Tensão muscular

  • Queixas somáticas recorrentes


Caminhos clínicos possíveis


Do ponto de vista psicológico, o trabalho com burnout costuma envolver:


  • Psicoeducação sobre estresse e emoções

  • Identificação de padrões cognitivos rígidos

  • Desenvolvimento de autorregulação emocional

  • Reavaliação de valores e limites

  • Reconstrução da relação com descanso e autocuidado


É importante ressaltar que não existe uma intervenção única ou universal para burnout. O trabalho clínico deve ser sempre contextualizado, respeitando a singularidade do paciente e seu ambiente de vida.


Considerações finais


O burnout não é apenas resultado de excesso de trabalho, mas de uma combinação complexa entre contexto, crenças, emoções e padrões de funcionamento psicológico. Uma compreensão clínica cuidadosa evita tanto a patologização excessiva quanto a banalização do sofrimento.


A psicologia clínica, especialmente em suas abordagens contemporâneas, oferece ferramentas sólidas para compreender o burnout como processo e para apoiar trajetórias de mudança mais sustentáveis.


Ao ampliar o olhar para além do sintoma imediato, o trabalho terapêutico pode ajudar o indivíduo a reconstruir uma relação mais saudável com desempenho, limites e sentido.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico profissional.

 
 
 

Comentários


Atendimento Online Psicóloga Anna Beatriz

© 2025 por Anna Beatriz Barbosa Dorado, Psicóloga.

bottom of page